
Talk about bad T.V..
"Network" é um filme de 1976, de Sidney Lumet, que eu apenas havia "visto" em
"Serpico", 1973, ou em
"12 Angry Men", 1957 , ambos óptimos exemplos da necessária maestria apontada a um realizador, e Network não foge à linha de um realizador interventivo, à frente do seu tempo, colocando questões que nós (alguns) apenas nos colocamos agora. E mais do que as colocar, julga-as no mesmo MEIO que usa para as expor, a T.V.. Sim, a t.v., mas em maiúsculas. Aquela que nos deteriora a mente. A manipulação da mente através da programação, baseada em estudos de mercado e em campanhas de marketing. Como diria o
"Bulworth" ( de Warren Beaty, 1998), "Cut to commercial, cut to commercial".
Sidney Lumet expõe de uma forma displicente, e sem categorizar, contemplar, ou julgar, a ética de mostrar os vários aspectos da nossa cultura actual, e principalmente no preço que asseguradamente todos nós têm pendente sobre a sua cabeça, como passível de ser vendável, ou potencial comprador de determinado produto.
A premissa do filme não poderia deixar de ser apelativa. Um apresentador de telejornal é despedido, entrando numa espécie de transe expondo a sua raiva, profetizando revelações concernentes a todos. O canal de televisão resolve explorar esta precognição de tão invulgar profeta.
Um elenco de luxo, com Peter Finch à cabeça, vencedor de vários prémios incluindo o Oscar para melhor actor. Elenco de luxo tendo arrebatado os Oscares dos actores neste ano quase todos, incluindo o de melhor argumento original. Faye Dunaway, está uma princesa do gelo, bela e distante, Robert Duvall, aguerrido e com a ganância verde nos olhos, bem viva.
A realização de Sidney Lumet é consciente e extremamente consistente, mostrando de forma voyeurística aquilo que já é observado, quer pelo espectador, como incógnita sempre presente do mundo da televisão, quer pelos responsáveis pelo canal de televisão que resolvem colocar Howard Beale no ar, juntamente com as suas "lunáticas" e proféticas visões enraivecidas. A camara de Lumet deambula entre este mundo, conscientemente assumindo a existência desse invísivel (o público), mas colocando-se de forma fatídica à margem de qualquer envolvimento.
Este não é um filme sobre a televisão, mas sim sobre o abusador poder desta, e a sua esmagadora capacidade de vulgarizar, talvez mesmo destruir, tudo aquilo em que toca.
"All we say is,
«Please. At least leave us alone in our living rooms.
Let me have my toaster, my TV, my steel-belted radials.
I won't say anything. Just leave us alone.»
I'm not gonna leave you alone.
I WANT YOU TO GET MAD."
Howard Beale, in "Network"
daigoro